A Trajetória de Vida e Pensamento Político de Dr. Chico Sousa
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| Francisco Pereira de Sousa (Chico Sousa) |
Aos seis anos de idade, já participava do trabalho na roça: encoivarava, capinava, plantava e ajudava na colheita. As roças cultivadas por seu pai localizavam-se, inicialmente, no povoado São Benedito, zona rural de Timon, próximo ao Riacho do Roncador. Mais tarde, aos sete anos, ao mudar-se com a família para Parnarama (MA), o trabalho rural passou a ser exercido nos povoados Guerreiro e Sítio Escuro, zona rural daquele município, espaços que fizeram parte de sua infância e de suas primeiras experiências laborais.
Ainda criança, participou de outras atividades destinadas a contribuir para a sobrevivência familiar. Fez e vendeu carvão; vendeu alumínio, ferro-velho, cobre, osso, dindin, bolos, pães e pastéis; e acompanhou a mãe em festas, onde ela montava bancas para a venda de frituras e outros alimentos. Foi uma infância na qual o trabalho, as dificuldades econômicas e a luta cotidiana pela sobrevivência estavam presentes muito antes de qualquer compreensão teórica sobre desigualdade social.
A fome também fez parte dessa realidade, experimentada em diferentes momentos de sua infância. Aquilo que, posteriormente, seria objeto de reflexão histórica, jurídica, social e política foi, antes de tudo, experiência concreta de vida.
Aos 12 anos de idade iniciou sua trajetória escolar, na Escola Rural de Parnarama. O ingresso tardio na educação formal, entretanto, não impediu que a escola se transformasse progressivamente em instrumento fundamental de mudança de sua trajetória. Aquele menino que havia conhecido a roça e o trabalho antes da sala de aula encontraria na educação um caminho para ampliar seus horizontes e construir novas possibilidades.
Chegou em Caxias (MA) no dia 12 de agosto de 1984, aos 17 anos, iniciou sua trajetória de trabalho urbano como ajudante de eletricista do Seu Dada, na prática abrindo paredes para a passagem de eletrodutos e condutores de fios elétricos. Iniciou um curso de eletricista, já em andamento, no Serviço Social do Comércio (SESC), com o professor e eletricista Idelbrando. Quinze dias depois, veio a prova: fazer um “triuê” com os fios energizados. Dr. Chico Sousa realizou a prova com êxito, figurando em primeiro lugar.
Tomou gosto pela profissão de eletricista, a qual exerceu por dez anos. Exerceu também a profissão de gerente de posto de gasolina no povoado Buriti Corrente.
Ao mesmo tempo, iniciou uma trajetória de participação comunitária vinculada, inicialmente, à juventude católica. No Conjunto Cohab, bairro Nova Caxias, fundou o grupo de jovens católicos UNIEC — Unidos Iremos ao Encontro de Cristo. Posteriormente, contribuiu para a fundação do JOVAC — Jovens de Volta Amando Cristo, no bairro Volta Redonda, nomes sugeridos por ele e aprovados pela juventude da época. Integrou, ainda, a Pastoral da Juventude Católica.
Essas experiências constituíram seus primeiros espaços de organização comunitária, convivência coletiva e participação social em Caxias. Sua atuação social alcançou também a defesa dos direitos humanos e das comunidades envolvidas na luta pelo acesso à terra. Assessorou o Centro de Defesa dos Direitos Humanos Antônio Genésio (CDDHAG), participando de ações relacionadas às reivindicações fundiárias e contribuindo para processos de desapropriação envolvendo as comunidades de Central, Caxirimbu e Engenho D’Água. Essa experiência aproximou-o concretamente das relações entre direitos, propriedade, organização popular, instituições públicas e demandas sociais.
Sua trajetória político-partidária ganhou dimensão mais definida com a filiação ao Partido dos Trabalhadores (PT), em julho de 1988. A partir daí, participou da organização partidária em Caxias, exercendo funções de direção e envolvendo-se diretamente nos debates sobre os caminhos da esquerda brasileira, a construção de maiorias políticas e as possibilidades de transformação social pela via democrática.
No ano de 1993, coordenou a Caravana das Águas de Lula na região leste do Maranhão, com início em Caxias no dia 16 de abril. Na ocasião, foram realizados quatro atos públicos na cidade. O primeiro ato foi a recepção de Luiz Inácio Lula da Silva na Câmara Municipal de Vereadores, onde ele recebeu a Cidadão Caxiense honorário. O segundo foi um comício no Largo de São Sebastião, às 20 horas, que reuniu mais de 20 mil pessoas.
O terceiro ato consistiu em um jantar para 300 pessoas e, por fim, o quarto foi um encontro com os estudantes da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), Campus Caxias, realizado na sacada do Excelsior Hotel.
Entre 1997 e 2000, participou da liderança da Central dos Movimentos Populares em Caxias, integrando mobilizações de fiscalização da Administração Pública e de combate à corrupção municipal. Aquele período foi marcado por intensa participação dos movimentos sociais na vida política local e por processos político-institucionais que resultaram na cassação do prefeito eleito em 1996 e, posteriormente, de seu substituto. A experiência proporcionou contato direto com a participação popular, o controle social, a responsabilidade dos agentes públicos e o funcionamento das instituições democráticas.
Em 1996, participou das prévias internas do PT para a escolha da candidatura à Prefeitura de Caxias. Em uma disputa inicialmente composta por cinco pré-candidaturas, venceu o primeiro turno e chegou ao segundo, no qual houve empate. Não foi escolhido candidato em razão do critério de desempate que favorecia o concorrente de maior idade, sendo Dr. Chico Sousa o mais jovem entre os dois finalistas.
No dia 05 de setembro de 1999, depois de mais de uma década de militância partidária, foi eleito presidente do Diretório Municipal do Partido dos Trabalhadores em Caxias. Naquele período, defendia uma compreensão estratégica que encontrou forte resistência em setores internos do partido: considerava que a ampliação nacional do PT e a construção das condições políticas necessárias para uma futura vitória de Luiz Inácio Lula da Silva na disputa pela Presidência da República exigiriam superar determinados limites de isolamento político e construir alianças mais amplas, particularmente no Nordeste.
Entre as possibilidades que sustentava no debate estavam uma aproximação com Tasso Jereissati, no Ceará, ou com o grupo político liderado por José Sarney, no Maranhão.
As divergências internas em torno dessa concepção estiveram entre os fatores que levaram à sua expulsão do partido. Dr. Chico Sousa recorreu da decisão ao Diretório Estadual do PT e obteve seu retorno às fileiras partidárias, embora sem a restituição à Presidência do Diretório Municipal. Recorreu, posteriormente, ao Diretório Nacional e, diante da demora na apreciação do recurso, decidiu desligar-se voluntariamente do PT, encerrando, naquele momento, uma trajetória partidária iniciada em 1988.
Após sua saída do PT, filiou-se ao Partido Verde (PV) e, posteriormente, ao Partido Popular Socialista (PPS), no qual chegou à Presidência do Diretório Municipal. A passagem por diferentes organizações partidárias ampliou sua experiência sobre a estrutura e o funcionamento dos partidos, suas correntes internas, processos decisórios, divergências programáticas, alianças e relações com a sociedade e as instituições públicas.
Em 2012, retornou ao Partido dos Trabalhadores. Esse retorno foi acompanhado de uma decisão pessoal que, posteriormente, adquiriria significado particular em sua trajetória: se algum dia voltasse a se desfiliar do PT, procuraria participar da construção de um novo partido político no Brasil. A ideia permaneceu como um compromisso pessoal durante os anos seguintes.
Em novembro de 2024, Dr. Chico Sousa desligou-se novamente do Partido dos Trabalhadores. Dessa vez, a decisão foi acompanhada pela concretização daquele propósito. Em 23 de novembro de 2024, no auditório do Serviço Social do Comércio (SESC), na cidade de Caxias, Maranhão, realizou a Assembleia de Fundação do Partido Neossocialista (PN), dando início à organização formal de uma nova agremiação política no Brasil.
O processo de institucionalização prosseguiu e, em 17 de outubro de 2025, o Partido Neossocialista (PN) foi registrado no Cartório de Registro Civil de Pessoas Jurídicas. A agremiação segue em processo de formação perante o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), cumprindo as etapas legalmente exigidas para sua constituição como partido político em âmbito nacional.
Essa trajetória partidária, iniciada em 1988 e atravessada por militância, direção partidária, divergências internas, afastamentos, retornos e pela posterior fundação de uma nova organização política, integra a experiência a partir da qual Dr. Chico Sousa desenvolveu sua compreensão sobre democracia, partidos, poder, organização do Estado e construção de projetos políticos.
A fundação do Partido Neossocialista não aparece, assim, isoladamente em sua biografia, mas como resultado de um percurso de décadas de participação na vida política e de elaboração progressiva das ideias que, posteriormente, seriam sistematizadas no Neossocialismo Brasileiro.
A experiência política contribuiu também para consolidar uma compreensão que, posteriormente, assumiria dimensão mais ampla em sua reflexão intelectual: estabelecer objetivos estratégicos não significa tornar imutáveis os caminhos para alcançá-los. A política democrática exige capacidade de interpretar circunstâncias históricas, construir convergências e distinguir os objetivos permanentes dos meios políticos utilizados em cada momento.
Sua trajetória educacional conduziu-o, posteriormente, à formação universitária. Como estudante do curso de História da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), Campus Caxias, participou ativamente do movimento estudantil. Fundou no Campus Univercitário de Caxias – Maranhão o MUDI — Movimento Universitário Independente, movimento que posteriormente o levaria a presidir o CAEH — Centro Acadêmico dos Estudantes de História e, posteriormente, o DCE — Diretório Central dos Estudantes do Campus Caxias.
Nos anos 2000, participou da liderança de mobilizações e de uma greve estudantil por melhores condições de infraestrutura, ensino e estudo na Universidade. Contribuiu também, como sujeito ativo, para a fundação da União dos Estudantes de História do Maranhão, ampliando sua experiência de organização e representação para além dos limites do próprio campus.
Paralelamente à formação universitária e à militância política e estudantil, desenvolveu uma sólida carreira na Administração Pública municipal. Entre 2001 e 2004, exerceu a função de Assessor Especial do Fundo de Previdência do Município de Caxias. Nesse mesmo período da gestão municipal, atuou também como Assessor Especial de Articulação e foi o responsável pela criação da Ouvidora-geral do Município, nesse interim aplicou e consolidou o Orçamento Participativo no município, iniciativas que ampliou sua experiência em gestão pública, articulação institucional e fortalecimento dos mecanismos de interlocução entre o governo e a sociedade.
Posteriormente, de 2009 a 2016, atuou como assessor jurídico da Procuradoria-Geral do Município de Caxias. Desde 2023, ocupa o cargo de Assessor Jurídico Sênior na representação do Município de Caxias para Brasília.
Exerceu o magistério e ingressou na advocacia, somando à experiência de vida os instrumentos do conhecimento histórico, da educação e do Direito. Sua formação em História acrescentou a essa trajetória uma perspectiva fundamental: a compreensão de que instituições, sistemas econômicos, formas de organização política e relações sociais são construções históricas e, exatamente por isso, podem ser transformadas pela ação humana.
Compreender o presente exige conhecer os processos que o produziram; pensar o futuro exige reconhecer as possibilidades existentes em cada momento histórico. O magistério, por sua vez, aproximou o conhecimento de sua transmissão, reforçando a importância que a educação, posteriormente, assumiria em sua concepção do desenvolvimento nacional.
A formação em Direito e o exercício da advocacia acrescentaram outra dimensão à sua compreensão do Estado. O contato com o ordenamento jurídico e com as instituições do sistema de Justiça permitiu-lhe observar o Estado não apenas como objeto de reflexão política ou histórica, mas como uma estrutura concreta formada por instituições, competências, servidores, procedimentos, direitos, garantias, deveres e responsabilidades.
A experiência jurídica aproximou, assim, a reflexão teórica do funcionamento cotidiano das instituições republicanas.
Sua trajetória foi igualmente marcada pela participação sindical, comunitária, estudantil e política. Essas diferentes experiências permitiram-lhe acompanhar diretamente conflitos, reivindicações e possibilidades presentes nas relações entre trabalho, sociedade, economia, movimentos sociais, partidos políticos e instituições públicas. O debate político deixou de ser apenas matéria de estudo para constituir também uma experiência prática de participação na vida pública.
É justamente do encontro entre a experiência do trabalho desde a infância, a vivência das desigualdades sociais, a educação, a História, o movimento estudantil, o magistério, o Direito, a advocacia, a participação comunitária e sindical, a atividade política e a experiência na Administração Pública que emerge parte importante da perspectiva intelectual desenvolvida nesta obra.
A pobreza e a fome foram conhecidas antes de serem estudadas; o trabalho foi experimentado antes de se transformar em categoria de reflexão; a educação foi conquistada após um ingresso escolar tardio; e o Estado foi posteriormente observado pela História, pelo Direito, pela política, pela Administração Pública e pela experiência concreta de suas instituições.
Esse percurso ajuda a compreender por que temas como dignidade humana, trabalho, educação, justiça social, participação democrática, instituições, planejamento, soberania, desenvolvimento e responsabilidade entre gerações ocupam posição central em sua reflexão. Não se trata apenas de categorias abstratas. São questões que, em diferentes momentos e sob diferentes formas, atravessaram sua própria experiência de vida e, posteriormente, encontraram elaboração intelectual.
Ao longo dos anos, Dr. Chico Sousa passou a considerar que os problemas brasileiros não poderiam ser compreendidos exclusivamente pelas tradicionais oposições entre Estado e mercado, capitalismo e socialismo, ou crescimento econômico e proteção social. As profundas transformações científicas, tecnológicas, ambientais, produtivas e geopolíticas do século XXI exigiam, em sua compreensão, uma formulação capaz de articular democracia, soberania, planejamento, conhecimento, desenvolvimento econômico, justiça social e proteção da vida.
É desse processo de experiência e reflexão que surge o Neossocialismo Brasileiro, concebido a partir da realidade histórica nacional como uma proposta própria de organização do Estado e do desenvolvimento.
Para Dr. Chico Sousa, pensar o Brasil significa compreender simultaneamente aquilo que o país recebeu de sua história, aquilo que possui no presente e aquilo que precisa construir para o futuro. Território, população, recursos naturais, biodiversidade, cultura, instituições, universidades, ciência, infraestrutura, capacidade produtiva e conhecimento constituem patrimônios que somente alcançam plenamente sua dimensão estratégica quando transformados em capacidades permanentes da Nação e transmitidos às gerações seguintes.
Essa compreensão orienta O Neossocialismo no Brasil — Livro Branco: Ensaio de Ciência Política, Teoria do Estado e Políticas Públicas. A obra representa o resultado de uma reflexão construída a partir da experiência brasileira e do diálogo com diferentes tradições do pensamento histórico, político, econômico, jurídico e social.
Não pretende apresentar uma verdade definitiva nem um sistema político fechado, mas oferecer uma contribuição autoral ao debate sobre o Estado brasileiro e sobre as possibilidades históricas do país no século XXI.
Sua vinculação com o Maranhão integra profundamente essa trajetória. Nascido na zona rural de Timon, Maranhão, tendo vivido parte da infância em Parnarama, Maranhão, e construído posteriormente sua trajetória social, política, intelectual e profissional em Caxias, Dr. Chico Sousa desenvolveu sua reflexão a partir de uma realidade regional concreta, sem, contudo, restringi-la aos limites regionais.
Caxias, terra de importante tradição cultural e intelectual associada a nomes como Gonçalves Dias, Coelho Neto, Teixeira Mendes e Vespasiano Ramos e outros quão importantes, constitui o espaço a partir do qual o autor observa o Brasil e procura participar de uma discussão de dimensão nacional: a construção de uma República soberana, democrática, socialmente desenvolvida e capaz de preparar seu futuro.
Ao publicar esta obra, Dr. Chico Sousa reúne uma trajetória que começou no trabalho rural ainda na infância, atravessou as dificuldades materiais e a experiência da fome, chegou tardiamente à escola e encontrou na educação um caminho para a formação universitária, o magistério e a advocacia.
A essa jornada somaram-se a experiência comunitária, a defesa dos direitos humanos, a atuação em movimentos populares, décadas de atividade político-partidária, o movimento estudantil, a participação sindical e mais de duas décadas de experiência na Administração Pública municipal. Da militância iniciada no final da década de 1980 à participação na fundação do Partido Neossocialista, essa experiência política acompanhou a progressiva elaboração de uma concepção própria sobre Estado, democracia, desenvolvimento e organização da sociedade.
Reúne, assim, experiência de vida, formação em História e em Direito, atuação profissional, participação pública e reflexão intelectual em torno de uma questão fundamental que atravessa todo o Livro Branco: que Estado, que economia, que sociedade e que projeto de desenvolvimento o Brasil precisa construir para realizar plenamente suas potencialidades no século XXI?
A resposta apresentada pelo autor não é concebida como um ponto final, mas como uma contribuição para um processo histórico necessariamente coletivo. O Neossocialismo Brasileiro apresenta-se, dessa maneira, como uma proposta aberta à crítica, ao conhecimento, à experiência, ao aperfeiçoamento democrático e às transformações produzidas pelas gerações que participarão da construção do futuro da República.
Texto: Francisco Pereira de Sousa (Dr. Chico Sousa)
Edição: Blog do Irmão Inaldo
